Eduardo Sacheri, paixão a serviço das histórias

Eduardo Sacheri, paixão a serviço das histórias

*por Matías Izaguirre, autor convidado, direto de Buenos Aires

Talvez um dos maiores talentos de Eduardo Sacheri como narrador seja sua aguda capacidade para capturar os detalhes, para observar os pequenos gestos e as condutas humanas. Para então, como se fosse um mestre-artesão, poder se dedicar à trabalhosa tarefa de armar, peça por peça, um cenário em que esses personagens vivam as histórias que ele lhes propõe.

Alguma vez Borges escreveu que “qualquer destino, por longo e complicado que seja, consta na realidade de um único momento: o momento em que o homem sabe para sempre quem é”. A literatura de Sacheri, muitas vezes, logra transportar o leitor a esse instante definitivo em que uma vida se justifica por si mesma. Essa é, entre outras explicações possíveis, uma das razões do êxito deste professor de História, transformado em renomado escritor e que desde alguns anos goza do reconhecimento do grande público (sua obra foi traduzida por mais de 30 idiomas) tanto como da crítica.

Entrevista: Eduardo Sacheri

Revista SARRIÁ – Em seus livros, o futebol aparece de maneira recorrente, como se fosse o pano de fundo de muitas de suas histórias. Imagino que, além de sua paixão por esse jogo, deve existir alguma razão literária para que o futebol lhe interesse como tema.
Eduardo SACHERI – O que me interessa são essas grandes questões que estão na vida de qualquer pessoa. O amor, a dor, a perda, o desejo, a esperança, a frustração, a morte. Agora, falar diretamente sobre isso é complicado. Eu gosto, geralmente, de poder aproximar esses temas à vida cotidiana, às pessoas comuns. E no jogo de uma vida comum tentar falar desse outro. E que cada leitor entenda como queira, como possa, ou como lhe pareça.

E nessas vidas comuns, que são um pouco como a de todos nós, o futebol é importante…
Sim, claro. Nestes cenários comuns o futebol funciona muito bem. É um cenário que eu conheço muito, inclusive. Eu gosto de assistir e mais ainda de jogar. E tem a vantagem de ser o cenário de um jogo.

Em qual sentido há vantagem?
Esqueça da literatura por um momento. Quando nós jogamos (futebol), trazemos à superfície diversas coisas muito profundas. Coisas que em nossa vida não estão na superfície, estão tácitas, ocultas. Operam ocultamente. Quando você joga isso vem à tona. Se você analisar as condutas das pessoas que jogam (futebol), parecem ridículas.

As brigas e broncas em uma partida com amigos, por exemplo…
Claro, como você vai ficar irritado porque perde uma partida de futebol society com seus amigos numa terça-feira à noite? Como é possível que você marque um golzinho e saia reconciliado com a vida? Porque o que está sendo colocado em jogo é o profundo. Então me parece que tanto a literatura como o futebol criam esse movimento de ascenso à superfície de coisas essenciais.

E pelo fato de você ser historiador, me perguntava duas coisas. Primeira, se não lhe interessa escrever sobre História e, por outro lado, se a História não é outro cenário que, na ficção, também lhe permitisse falar sobre grandes questões de um modo, se preferir, lateral?
Eu me dediquei, entre outras coisas, a escrever ficção porque logo que comecei a estudar, me cansei dessa coisa regrada, solene, hermética e pedante, própria de qualquer círculo de acadêmicos. Foi muito frustrante para mim. Então, desde o princípio, disse a mim mesmo: “bom, terei um vínculo com a História e outro vínculo com a Literatura”. São dois compartimentos que funcionam em paralelo. Quando eu escrevo ficção, pretendo que exista um contexto histórico verossímel. Ou seja, que meus personagens não estejam suspensos no ar, mas que vivam em uma sociedade, em um tempo com determinados valores, etc.

Independiente, o nome de uma paixão

No seu livro A vida que pensamos é possível ler um dedicatória muito particular. Diz: “Quero dedicar este livro ao Club Atlético Independiente. Pelo amor que sinto por sua camiseta. E porque esse amor foi um presente do meu pai”. Esse gesto, para mim pouco usual – pois desconheço se algum outro escritor dedicou um livro ao seu clube – faz com que eu lhe pergunte sobre a dedicatória… Tem alguma relação com alguma etapa em particular do clube?
Sempre dedico os livros [Sacheri sorri, talvez ao pensar que não devem existir muitos escritores que tenham feito algo assim], e sempre dedico a alguém que eu goste muito. Minha mulher, meus filhos, meus país, meus amigos. Quando estava preparando a edição do livro, o Independiente estava numa fase horrível, mas ainda não havia sido rebaixado. Então eu pensei: “bom, desta vez o ser querido que precisa de minha dedicatória é o Independiente”. E de fato o livro saiu praticamente junto com o rebaixamento do Independiente. O que eu posso fazer? São coisas que acontecem.

Evidentemente o Independiente ocupa um lugar importantíssimo em sua vida, mas também em sua obra. E às vezes ambas se entrelaçam. O Independiente também é a desculpa, a porta que te permite voltar a conectar-se com pontos específicos do seu passado, com essa casa cheia de bandeiras do Rojo, de sua infância, e com momentos felizes ao lado do seu pai?
Acho que sim, é uma conexão com o meu pai. Escrever é conectar-se com coisas que você não tem, ou com pessoas que você não tem. Então, escrever às vezes nessa vertente autobiográfica sobre Independiente e sobre o meu pai funciona como uma maneira de recuperar. De qualquer maneira, eu tento não me colocar em uma posição nostálgica porque acho que, a grosso modo, a nostalgia empobrece.

E não é difícil não cair na nostalgia quando você pensa no Independiente, depois de um passado tão glorioso?
Sim, claro. É muito difícil para o torcedor do Independiente não cair na nostalgia. E eu acho que, em todo caso, é bom ir até o passado, pensar nele e ter essa memória fresca, mas acho que tudo isso deve estar a serviço daquilo que você faz para voltar a viver coisas boas.

Algo do tipo de que não se pode viver apenas da História, é preciso criar coisas novas…
Claro. Se eu tivesse a possibilidade de voltar ao passado, não iria. Porque o que eu quero é ganhar a oitava Libertadores, jogar bem, ser campeão do torneio local. Não voltar a viver a sétima. Isso já foi. Já passou. Eu quero que no futuro, com meu filho, possamos ter coisas novas como aquelas que eu tive com meu pai. Mas a solução está para frente, e não atrás.

Se a solução está para frente, e já que mencionamos o seu filho, como foi ou como é todo esse ritual da educação sentimental futebolera, que passa de pai para filho e que cada família vive de sua maneira, com bandeiras em casa, como você fazia com o seu pai?
Isso de enfeitar a casa com bandeiras eu vivi quando era criança. Agora ele já tem 18 anos e não dá mais para fazer [Sacheri se diverte]. Mas sim, nós temos nossos rituais como, por exemplo, ver qual camisa cada um vai vestir. E agora, já faz alguns anos, sempre que Independiente joga como local nós vamos ao estádio. Não perdemos um só jogo.

A seleção argentina: de Maradona a Messi

Messi e o eterno dilema na Argentina: falta ou não uma Copa do Mundo? [crédito: Juan Carlos Roleri/Télam]

Messi e o eterno dilema na Argentina: falta ou não uma Copa do Mundo? [crédito: Juan Carlos Roleri/Télam]

Um dos textos mais reconhecidos foi “Me van a tener que disculpar”, que é uma espécie de agradecimento e, ao mesmo tempo, discurso em defesa de Maradona…
É… eu escrevi isso em 1996. Com o 94 na memoria. Ele estava voltando da punição, acho. Quando ele voltou para o Boca com aquela faixa amarela [Sachei ri movimentando a cabeça, com um movimento rápido, em negação]. Era como o renascer. Era o Fênix. E sabe quando você pensa: “vai voltar a se autodestruir, quanto isso pode durar?” É um pouco do que eu penso todas as vezes.

Mas esse texto segue tendo vigência para você, quero dizer, não mudaria nem uma vírgula, apesar de já se ter passado quase 20 anos?
Não mudaria nada porque sigo pensando a mesma coisa. E acho que o Diego está condenado a isso. É um herói trágico exemplar. Ou seja, o destino do cara é atear-se fogo. Até que morra vai ser assim, vai cumprir esse ciclo eterno de retorno e destruição.

É interessante o que você diz porque não o coloca em um pedestal, simplesmente agradece…
Eu não gosto de idolatrar as pessoas, e tampouco faço isso com o Diego, mas sim, gosto de valorizar para as pessoas as coisas que fizeram bem. E sim, gosto de relembrar as minhas dívidas. E eu devo muito a esse sujeito. Então o mínimo que posso fazer é calar a boca. Ou seja, há outros sujeitos que fazem as mesmas barbaridades e não meteram aqueles dois gols na Inglaterra. Então não posso tratá-lo da mesma maneira. Para mim, a lealdade é um valor importante. E acho que o Diego merece.

E, no outro extremo, sem entrar em comparações porque nunca são justas e menos com esses dois, Messi também te gera alguma dívida similar?
É diferente. Porque apesar de não gostar de participar dessa coisa chauvinista, penso: “Maradona me deu um Mundial, Messi não”. Mas não quero perder o Messi por causa disso. Eu adoraria que ele tivesse levantado a Copa para calar a boca de todos que o criticavam. Mas não quero pensar naquilo que ele não me deu, porque esse cara me dá muito mais que todos os outros que estão jogando atualmente. E é argentino. E não sei se vai acontecer novamente de um argentino ser o rei do futebol durante uma década. Esse garoto está fazendo isso. E vou perder esse momento porque na seleção ele não rede como eu quero?

Bom, agora tem uma outra chance no Chile, na Copa América…
Sim, sim… mas para mim, a única maneira que o Messi tem de pagar é com um Mundial. Se não é na Rússia, não é. Não pagar para mim, cuidado. Estou dizendo essa dívida social-futebolística. Se não é um Mundial, não vai ser nada. Porque vão dizer: “mas o Messi não ganhou nunca uma Copa”. E outro vai dizer: “Vai para a casa do caralho”. Mas eu ainda ponho uma ficha na Copa da Rússia. Ele vai estar com 30 anos. Está bem. Não são os 26, mas…

Hinchas e futebol na Argentina

Com a suspensão do clássico Boca-River na Bombonera pela Libertadores e toda essa história de gás pimenta, parece que muitos redescobriram que no futebol argentino existe toda uma trama mafiosa de violência…
Sim, parece que de repente voltaram a descobrir que há violentos. Atenção: há dois anos e meio as partidas são sem público visitante, mas tínhamos esquecido da violência no futebol. Acho que tem muita hipocrisia no futebol argentino. Enquanto a bola girar… Veja só, pelo lado dos torcedores, enquanto tiver futebol quase se aceita qualquer coisa. Do lado do establishment do futebol é um negócio em que cada um mantém a sua parte. E enquanto não se compliquem uns aos outros – ninguém está disposto a fazer nada a respeito, eu acho.

Bom, o Javier Cantero empreendeu uma luta para erradicar a barra brava no Independiente…
Eu acho que se o Independiente não tivesse entrado em decadência futebolística e economicamente, ele ganhava essa guerra.

Teria sido bastante…
Sim, claro, muito. Mas apenas conseguiu deixá-los à margem. Porque se depois você não se salva do rebaixamento… Ou seja, está a caminho da B, não tem um tostão para pagar os salários, não só dos jogadores, mas dos empregados, então que tipo de luta contra a barra pode-se travar? Uma máfia não é desintegrada em seis meses. Então você precisa estar disposto a uma briga a longo prazo. Se você tem bala para dois dias não entre na guerra. Porque vai terminar mal.

Talvez tenha pensado que com seu exemplo outros dirigentes esportivos iriam se somar ou então que houvesse apoio político em outro nível.
Então isso é ingenuidade. Porque a primeira coisa que os dirigentes deveriam ter dito é: “Vamos atravessar um túnel muito escuro”. Brigar contra a barra é isso. “Temos certeza que vamos sair do outro lado?” Se vamos entrar nessa tenho que ser capaz de alcançar a saída, ou então nem faça. Senão é soberba, megalomania. E como não chegaram nem mesmo a desativar a barra, criaram uma disputa interna pelo controle da barra. Então como há duas populares, tivemos a barra dissidente do Bebote, em uma delas, e a barra que tomou o lugar do Bebote na outra.

De todos modos, acho que essas lutas sempre valem a pena, ou não?
– Sim, mas você tem que saber quanto tem para queimar. Porque é a longo prazo. De qualquer jeito, o que eu acho mais lindo de tudo isso, aquilo que é mais tragicamente maravilhoso do fenômeno do Independiente com a barra, foi estar no estádio com toda a cancha insultando a barra. Para mim, isso foi motivo de muito orgulho. Somos 30 mil torcedores gritando “mercenários” a estes filhos da puta.

O jornalista Gustavo Grabia, do Olé, especialista em assuntos de barras bravas, propôs algo como uma greve de torcedores, que o torcedor comum deixe de ir aos estádios.
Poderia ser, mas e depois da greve? Se entramos todos em acordo e me dizem: “Sacheri, não vá ao estádio por três meses e quando você voltar, não haverá mais barras, vamos participar todo mundo, você está dentro?” Sim, eu tô dentro. Participo. Agora, dentro de três meses, vou encontrar novamente os flanelinhas, os postos de choripán, com os negócios que fazem com a polícia, com os negócios que fazem com os dirigentes.

Ele disse nem tanto como uma proposta concreta em realizar uma ação coletiva, mas como um modo de tirar uma garrafa ao mar com a mensagem “basta de violência”, me parece.
Sim, entendo. Na verdade, o que eu acho mais complicado, e que me preocupa, é a conduta barra de pessoas comuns, que cada vez é mais acentuada. Atrás dessa legitimação simbólica de “você inventa canções idiotas e eu as canto”, está tudo isso de que há muitos clubes onde os barras são queridos, aplaudidos, festejados e respeitados. São quase endeusados.


O cinema, a rádio e a televisão

Soledad Villamil e Ricardo Darín em cena de O Segredo dos Seus Olhos [crédito: reprodução]

Soledad Villamil e Ricardo Darín em cena de O Segredo dos Seus Olhos [crédito: reprodução]


Nos últimos anos você viajou em outros terrenos que também permitiram contar histórias. Eu me refiro, principalmente, aos filmes O Segredo de seus Olhos (baseada em sua novela A Pergunta de seus Olhos, que ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro em 2010), Metegol e Papéis ao Vento. Como foi a experiência de circular neste ambiente tão diferente ao literário?
Eu acho que a multiplicidade é boa. Oxigena a vida. Há muitos anos eu estava no mundo da História, no mundo da docência, e então se somaram os livros e, depois, o cinema. Acho que tudo isso te desafia e te faz melhor, porque torna você mais flexível. Eu acho que o problema da especialização, qualquer que for, é o que deixa a sua cabeça engessada. E as emoções. Parece que se costuma a recorrer sempre aos mesmos circuitos.

E o fato de precisar adaptar suas novelas ou reescrever roteiros colaborativamente, imagino que é uma boa ideia, mas que também tem um custo, implica sair destes circuitos conhecidos?
Sim, é um antídoto espetacular contra isso de se crer como escritor. Porque como escritor, você acaba trabalhando muito sozinho. Um livro é da forma como você pensa que deve ser; um filme, não. Então tem que negociar, discutir, negociar, triunfar, negociar e perder. Eu acho que isso te enriquece como pessoa.

Há alguns meses você tem uma coluna no rádio para falar de livros no programa Perros de la Calle [programa diário da Radio Metro]. Não chama sua atenção tudo aquilo que você provoca ao ler algo no ar? Quero dizer, o Twitter explode, as ligações dos ouvintes, mas também aí, no programa, eles comentam o que você lê com muito entusiasmo.
Isso porque não há um espaço de leitura… E tudo isso que você está dizendo são os livros que criam. E que alguém os lê. Em nossa sociedade, nós perdemos o prazer da leitura em voz alta. E é legal que alguém a quem você considera leia algo que você quer. E que leia mais ou menos bem. E que pare a leitura e passe a conversar e diga; “veja, preste atenção no que se diz aqui”. Como se fosse um grupo de amigos que se juntam ao redor de um texto.

E aí também aparece seu lado docente, não?
Com certeza. Mas, digamos que é como praticar a docência com centenas de milhares de pessoas ao mesmo tempo. Lecionar pensando que você, como professor, sente algo valioso que é o saber e quer que seus alunos também saibam. Eu tenho alguma sabedoria de leitor porque leio feito um maluco desde os 4 anos. Veja que eu nunca falo dos meus livros aí. Porque neste momento eu não estou como escritor.

A conversa chega ao final e a sensação que resta é de que Sacheri entendeu, há algum tempo, o que verdadeiramente importa; sua família, seus amigos, Independiente, Castelar, suas aulas, a leitura, e que todo o resto é, na medida certa, passageiro. E que deve se acomodar à vida que tanto gosta e que o mantém com os pés sobre a terra.

Revista Sarriá
ADMINISTRATOR
PERFIL

Outras Postagens



Deixe um comentário

Seu e-mail não será publicado. Campos marcados com * são obrigatórios

Cancelar resposta