Laranjeiras, Esquinas e Trinta Anos de Sonho

Laranjeiras, Esquinas e Trinta Anos de Sonho

“Um quibe. Nada para beber”. Dou a nota de dez, comemoro que ela não perguntou se quero a nota fiscal paulista – estou no Rio, oba – e assisto o pouco apetitoso salgado ir ao micro-ondas. Começa a contagem regressiva e a lanchonete, instalada debaixo da arquibancada do estádio das Laranjeiras, tem uma súbita queda de luz, recuperada em poucos segundos. Antes de eu receber o quibe, nova queda e outros segundos no breu. “Tá feia a coisa”, fala a moça naquele suingue de carioca. Feia nada, minha senhora, é o que penso. Isto tudo que vejo é muito, muito bonito.

À beira do gramado das Laranjeiras de 2015 [crédito: Leandro Iamin/SARRIÁ]

À beira do gramado das Laranjeiras de 2015 [crédito: Leandro Iamin/SARRIÁ]

“As Laranjeiras são o Machu Pichu do futebol brasileiro”. A frase é de Heitor D´alincourt, membro do Flu-Memória, órgão que cuida do passado centenário do Fluminense e atua perto da lanchonete, em uma sala simples e espaçosa, também debaixo das arquibancadas, debaixo da história, do começo dela, em um terreno cercado pelo verde, com complexo aquático onde as crianças estão pulando dos trampolins e gritando livres, com quadras de tênis onde as cariocas estão de munhequeiras rosas e cabelos presos, com o ginásio que era teatro, o salão nobre que era o epicentro cultural da época em que o futebol era uma intenção, não um reflexo, por aqui. Com tudo que uma boa história tem direito.

Um espaço com museu formal, que guarda até a bola do primeiro gol do Brasil, marcado ali, que expõe ao sol e à sombra as estátuas de quem merece, que assopra o passado em cada firula do arquiteto, todas devidamente tombadas pelo patrimônio histórico da cidade, e que, a mim, de passagem, só deixa a desejar no quibe, apenas razoável. Na entrada do clube, o barulho das buzinas e motores é constante e vem da rua Pinheiro Machado. Ando até o último metro quadrado do dito cujo, depois das quadras de basquete e de vôlei e de tudo, e ouço o estampido. É um tiro. Uma escada e uma porta pesada e fechada separam a gente do departamento de tiro. Dou meia-volta, as tenistas, as crianças, o quibe, o museu, a sala da memória, o pedaço de cimento onde sento para assistir ao treino do Fluminense que acaba de começar. “Bem-vindo a história”, ouço de quem me recebe.

Trinta e um anos de auge

Entre 1919 e 1950 o estádio das Laranjeiras foi o Maracanã antes do Maracanã. O jornalista Lúcio de Castro, no documentário Geraldinos, do diretor carioquíssimo Pedro Asbeg, vaticinou: nenhuma cidade amou tanto um estádio quanto o carioca amou o Maracanã. Construído para a Copa do Mundo, era um retrato gigante do quanto o futebol ganhou corações no Brasil. Nas Laranjeiras, três décadas antes, a obra foi menor, é claro, mas do tamanho de sua época e suficiente para a força existente em torno do esporte que já tinha, ali naquele pedaço de terra, jogo, muito jogo. Já em 1914 a seleção brasileira fez sua primeira partida no que era conhecido como campo da rua Guanabara. Em 1907 o Fluminense já erguera a taça de campeão carioca naquele lugar. Paisandu-RJ e América também o fizeram antes daquilo virar o que virou.

Abertura do estádio, em 1919: Brasil 6x0 Chile.

Abertura do estádio, em 1919: Brasil 6×0 Chile [crédito: Flu-Memória]

O bairro das Laranjeiras era uma imensa fazenda de café, uma das primeiras experiências de classe média da cidade maravilhosa, loteada cuidadosamente depois que a corte portuguesa, que ficava na afastada São Cristóvão, tentou mudar o eixo de um Rio de Janeiro reagindo a uma novidade chamada República, proclamada em 1889. Pouco a pouco nascem os armazéns, cortiços, casarões, nas Laranjeiras sim, mas em todo um novo centro carioca também.  A cidade ganha apoio de investidores, chega a Light, chegam ferrovias e suas tralhas, e sai um traço de estilo de vida viciado e agora intimidado, precisando ser esquecido, de um tempo de escravidão e de corte portuguesa ditando os rumos que não ditará mais. A mudança política do país passaria pelas Laranjeiras. Antes disso, o comportamento coletivo pedia um bom motivo para mudar, e o futebol apareceu no cotidiano popular. Nas Laranjeiras, as duas coisas conviveriam lado a lado, como vizinhos literalmente de muro. O estádio e o palácio. Foram anos incríveis.

Chico Guanabara

O Recanto da Guanabara ficava em um morro no fundo do fundo do bairro das Laranjeiras, uma localidade sem saída, emparedada por uma pedreira na frente de um vale. No trabalho braçal em um casebre no alto do morro morava Chico. O Chico Guanabara, negro forte, de dorso longo, capoeirista e encrenqueiro. No livro O Negro no Futebol Brasileiro (Mário Filho, ele mesmo, 1964), Chico Guanabara é descrito como um capanga de pouco diálogo. “O pessoal do morro podia, no máximo, torcer pelo Fluminense. Brigar por ele como Chico, Fluminense do lado de fora, um valentão de tirar o chapéu de aba cortada, do alto da cabeça, lenço no pescoço, navalha no cinto, tamanco saindo do pé, não. Ninguém falasse mal do Fluminense perto dele. Chico Guanabara ia logo tocando o braço, passando rasteira, puxando a navalha”.

Chico Guanabara foi o primeiro torcedor do Fluminense. De tanto assistir, lá do alto, a prática do futebol informal e fraterno, sentiu-se parte daquilo e conheceu os jogadores. Mas era um negro bastante notável e a Lei Áurea ainda estava em período de digestão popular. Chico era a quase certeza de nariz torto, e, pouco diplomático, quase nunca levava desaforo para o fundo do morro. Em pouco tempo era o gandula espontâneo e o carregador de roupas daquele pessoal. Não tardou e virou, graças às demonstrações de vigor, um segurança extraoficial em digressões tricolores pelo Jardim Botânico ou em Andaraí. Um faz tudo, acostumado a ser aceito através do trabalho, que, ao ver o Fluminense ter nome e sobrenome, resolveu verbalizar seu apoio: “Vamos lá, Fluminense”, gritava e batia palmas no ritmo de sua conhecida capoeira. “É o primeiro torcedor de clube de futebol que tenho notícias no Brasil”, afirma Heitor D´alincourt.

Ainda O Negro no Futebol Brasileiro: “Chico Guanabara não pretendia ser outra coisa no Fluminense. Nunca lhe passara pela cabeça vestir a camisa das três cores. Até como torcedor ele conhecia o seu lugar. Na geral, olhando de longe a arquibancada, cheia de moças”. Chico Guanabara, em pouco tempo de alento, não estava mais sozinho. Peitão, um de seus amigos que aderiram ao Flu, também não era uma flor: fuzileiro naval, disputou uma luta de boxe no lugar de um atleta do Fluminense que se atrasou para o duelo. Apanhou para evitar o vexame do WO. Em uma confusão da dupla certa vez, reza a lenda que Chico nocauteou dois cavalos da polícia para fugir.

Era um apoio importante ao Fluminense que chutava bolas nas Laranjeiras do começo do século, e pretendia crescer exponencialmente, e este não era um desejo do pobre Chico, mas sim do poderoso Oscar Cox, o verdadeiro dono da bola no futebol do Rio. Uma tal família Guinle, a mais rica do Brasil republicano, também estava no jogo.

Inglaterra x França

Oscar Alfredo Sebastião Cox foi o idealizador do futebol no Rio de Janeiro. Seu pai, inglês nascido no Equador, fundara o Rio Cricket em 1898, clube para a colônia inglesa que pouco dialogava com a movimentação da nova república do lado de fora. Oscar estava curioso e rejeitava, por exemplo, a prática do remo, em alta na cidade. Não era coisa de gente séria, ele achava. Em 1901, ele volta de uma temporada em Londres decidido a mostrar o futebol para esta gente carioca. Traz as bolas, as regras, as demarcações. Faz os convites, reúne as pessoas, joga e vê seu irmão talentoso Edwin roubar a cena. No ano seguinte, contaminado pela excitação dos jogos, seria fundado o Fluminense Football Club e, no mesmo ano, alugado o campo da Guanabara. Não sem antes um encontro necessário acontecer.

Arnaldo Guinle e Oscar Cox trocaram influências, ideias e encontraram no futebol um gosto em comum. Mais tarde, com Cox já fundador e jogador e campeão pelo Flu, a dupla voltou a pensar unida. Se Cox idealizou o futebol na região, Guinle foi o mecenas, o homem da compra, do crédito, o avalista e patrono. “Pronto, Cox, o Fluminense agora tem o seu próprio terreno”. É chocante o tamanho daquilo, mas Cox, de alma leve e com a semente plantada, volta em 1910 para Londres, e nunca mais volta nem para uma visita e um quibe na lanchonete. Arnaldo a esta altura já voa baixo nos assuntos desportivos, não demora e entra inclusive para o COI. Tenta fomentar outros esportes com competições embrionárias além do futebol para repetir o gritante sucesso. É possível afirmar que Guinle estava viciado em novidades, mais do que preocupado em desfrutar daquilo que conseguia construir. Os sobrenomes Cox e Guinle, inglês e francês, estavam na certidão de nascimento daquela festa.

Guinle e Cox, os sobrenomes por trás da construção das Laranjeiras.

Guinle e Cox, os sobrenomes por trás da construção das Laranjeiras [crédito: Flu-Memória]

Os Guinle

Eduardo Pallasim Guinle, vazando carisma pelas orelhas, já acordava disposto e falante. Seu trabalho era vender, e ele era bom nesta função. Caiu nas graças da família de dom Pedro II. Ele e seu sócio, Cândido Gaffrée, eram os francesinhos que trabalhavam com tecidos importados e forneciam o que tinham de melhor para a família real, em preços módicos. Em 1888, a Princesa Isabel trabalhou bastante. Além de assinar a Lei Áurea, que garantiu o direito humano aos Chicos Guanabaras do país, rabiscou o papel que deu à família Guinle, por 39 anos, depois ampliados para 92, a exploração do porto de Santos. Se a simpatia entre Guinle e dom Pedro II teve influência nesta concorrência que se pretendia pública, não se sabe, mas estes foram os pedaços de tecido mais valiosos do mundo: a família Guinle ampliou seu campo de atuação que já era diverso, e passou a ter mais dinheiro do que é possível calcular.

O Porto de Santos só seria inaugurado quatro anos depois, em 1892, quando Guinle e seu sócio já haviam criado a Companhia Docas de Santos, que exploraria devidamente uma das grandes portas de saída de produtos do país. Era o auge da distribuição do café, o que ajuda a entender a preferência dos Guinle pelo bairro das Laranjeiras e seu solo cheio de plantações do tipo. Guinle ganhava dos dois lados. O dinheiro entrou de maneira agressiva em muito pouco tempo. Começava uma expansão territorial sem precedentes.

Os antepassados de Eduardo Guinle, franceses, chegaram ao Brasil com a fama de aristocratas rurais no país de origem, que de lá partiram por discordâncias religiosas, sob o insulto de huguenotes, como os protestantes eram chamados pelos católicos da coroa. Antes do Brasil, pisaram no Uruguai, onde Eduardo casou-se. Aqui no Brasil, porém, era tudo paz e amor para eles. A exportação de café dava vertigem de tão próspera. A amizade dos Guinle era disputada até pelo poder máximo da nova república. Em 1909 começa, em um lote nas Laranjeiras de posse dos Guinle, a construção do Palácio Laranjeiras, que, em 1940, sob o controverso pretexto de saldar algumas dívidas, foi dado ao Estado. Virou a residência dos presidentes até a construção do Palácio da Alvorada, em 58.

Em um terreno próximo, começou ao mesmo tempo a construção do estádio das Laranjeiras. Eram os primeiros monumentos reluzentes que gritavam para a cidade a força dos Guinle, e o arquiteto Hipolyto Pujol tinha esta orientação, mesmo: grite nossa força, marque a cidade. O Copacabana Palace, o Jóquei Clube e a Granja Comary são outros singelos exemplos de símbolos imobiliários da cidade levantados com o envolvimento direto e propriedade dos Guinle. Na Bahia, a família apostou na exploração de petróleo. O negócio envolvendo comércio e transporte de armas, aço e ferro também rendiam muito pelo país. Guilherme Guinle, um dos filhos de Eduardo, criou o banco Boavista (absorvido pelo Bradesco em 2000), fundou e presidiu a Companhia Siderúrgica Nacional, e os Guinle ocuparam até a cadeira presidencial do Banco do Brasil. Nada mal.

Os sete filhos de Eduardo

Eduardo Guinle, o patriarca, morreu em 1912, e não viu o estádio das Laranjeiras pronto. Gaffrée faleceu sete anos depois, ano da inauguração oficial do estádio, e, como perdeu a esposa e o filho no mesmo parto, deixou sua parte da fortuna para a família Guinle. Não havia família mais rica no Brasil. Os sete filhos de Eduardo herdaram o dinheiro e pintaram na cidade o próprio estilo de vida. A concessão do porto acabou em 1980. O poder absoluto, um tanto antes. Ainda hoje estão na justiça reivindicando dinheiro pelo terreno onde hoje está, pasme, o aeroporto de Cumbica, em Guarulhos. A história ocupa o maior espaço dentro do cofre desta família que, de mais rica, se tornou controversa e caricata com o passar das décadas.

Um deles, porém, continua com o nome intacto, graças à devoção de todo um time de futebol. Arnaldo Guinle, dos herdeiros da família, foi a figura mais envolvida no Fluminense e até hoje é referência patronal no clube. Sem filhos, sem casamento, herdeiro típico, atuou naquilo que mais gostava e fomentou aquilo que acreditava. Um empresário de gestos pouco aristocráticos e forte o suficiente para tomar a frente do estádio das Laranjeiras, prestes a ser inaugurado.

Não consta que a família Guinle, logo no primeiro ano de gestão do porto de Santos, tenha notado o desembarque de um certo Charles Miller com uma bola debaixo do braço. Teria sido um grande encontro.

Mais que futebol para Arnaldo Guinle

Arnaldo Guinle exercitou a personalidade, vestiu-se em gala e foi assistir uma apresentação do grupo Oito Batutas, que tinha Pixinguinha como figura destacada. A música era outra paixão desse ativo herdeiro (foi presidente da Orquestra Sinfônica Brasileira nos anos 40), que se apaixonou pelo que viu e ouviu a ponto de virar, sem pensar duas vezes, o mecenas da banda, que viajou pelo interior do estado por dois anos com seu dinheiro, até passarem, em 1922, seis meses em Paris, apenas desfrutando da música e da veia filantrópica de Arnaldo. As histórias de Pixinguinha, Donga e companhia em um território tão distante e tão iluminado renderam mais noites fabulosas do que a literatura conseguiu apurar, e a viagem deu ao grupo exposição única, consagrando Pixinguinha e dando ao estilo de música dos Oito Batutas um ar decididamente popular.

Desta forma, um recorte importante da vida do Rio de Janeiro se acostumando à república tinha, no que diz respeito ao futebol e também à trilha sonora, musical, forte traço do esforço de Arnaldo Guinle em alimentar de recursos aquilo que alimentava seu coração. No que tange a construção das Laranjeiras, esta proximidade com o que acontecia na cidade o ajudou a escolher os melhores profissionais em algo que muito lhe importava: a cidade estava sendo repaginada e as Laranjeiras deveriam ser o maior exemplo disso.

Da mesma forma, o torneio sul-americano de seleções, marcado para 1918, deveria ser um exemplo marcante da consolidação do futebol e do terreno das Laranjeiras como capital do dito cujo. Cancelada por conta da gripe espanhola e remarcada para o ano seguinte, deu tempo de Guinle abrir a carteira e submeter o terreno a novas obras de acabamento. Ali estava, para ao menos 20 mil pessoas, o estádio das Laranjeiras, à espera de Brasil x Chile, pela primeira rodada, em 11 de maio, a inauguração depois da inauguração, do Maracanã que precedeu o Maracanã.

Futebol e esquina

“O futebol inventou a esquina no Rio de Janeiro. Não havia esquina para ficar parado, conversando, as ruas da cidade eram só uma manada de gente andando. O futebol motivou a interação de raças, classes, e a primeira vez que elas se abraçaram exultantes foi com um gol em um jogo de futebol”. A frase de Heitor D´alincourt emoldura o quadro do estilo de vida que o futebol dá a uma cidade que, em 1900, tinha cerca de 700 mil habitantes.

A monarquia portuguesa recuava, e o mesmo acontecia com os esportes preferidos da época, demasiado individuais e nada coletivos, como o remo por exemplo. A cidade estava ganhando corpo coletivo, afinal. Firmas e fábricas chegam aos poucos com seus trabalhadores, mais demanda por lazer é gerada, um esporte com quase uma dúzia de caras pra cada lado parece fazer sentido, e sobram sinais insultuosos com o dedo médio para aqueles frescos remando na enseada de Botafogo. Nós vamos de bola.

Sul-americano de 1919

A concorrida tribuna de honra no Sul-americano de 1919.

A concorrida tribuna de honra no Sul-americano de 1919 [crédito: Flu-Memória]

Brasil, Argentina, Chile e Uruguai jogaram o 3º Campeonato Sul-Americano de Seleções. A ocasião foi tratada como inauguração efetiva do estádio das Laranjeiras, que desde 1915 já era mais que um campo graças às primeiras reformas e lances de bancadas. Um único andar de bancadas dando a volta no gramado era o que tínhamos em 1919, simples e prático, bonito e imponente, com árvores altas do lado de fora. O Uruguai trazia as duas taças, era o bicampeão. O Chile chegou com a intenção de apanhar de pouco. E a Argentina, duas vezes vice, inauguraria a revista El Gráfico, ainda hoje a maior sobre futebol no país, um dia depois do encerramento do torneio. Uma ocasião especial que merecia uma revista dedicada.

Maio de 1919 foi mês efervescente no Rio. O 1º de Maio teve manifestação sem precedentes, na Avenida Rio Branco, tomada desde a Praça Mauá até a Praça Floriano Peixoto, cuja voz coletiva, tateando a ideia de direitos trabalhistas, clamava por liberdade e igualdade. Era o início do sentimento de associação operária na cidade, reunindo a União dos Tecelões (notadamente os que nunca venderam tecidos para dom Pedro II), o Centro Cosmopolita, a União dos Operários em Construção Civil e outros grupos, inclusive anarquistas prontos para discutir a cidade. Polícia e governo estavam incomodados com o possível encontro desta insatisfação coletiva com a festa possível do futebol. Não há registro de violência ou conflito efetivo entre autoridades e populares nestes protestos.

A gripe espanhola ainda era a inimiga de todo o mundo, e pegava pesado no Brasil. Era uma epidemia que derrubava a saúde e a moral da cidade. Em campo, caberia ao Chile a honra de inaugurar aquela beleza dominada por mais de 15 mil torcedores junto do escrete brasileiro, em 11 de maio. Foram seis gols do time da casa diante do Chile, e depois mais três na Argentina, na rodada seguinte. Tudo certo para o Brasil. A partida final aconteceria em igualdade de pontos, Brasil e Uruguai frente a frente, no Rio de Janeiro que um dia veria o Maracanazo.

Estava dando Uruguai. Em menos de 20 minutos, a celeste já vencia por 2×0. Foi o corinthiano Neco, com dois gols, um em cada tempo, quem recolocou a igualdade no placar e obrigou os dois times a um jogo de desempate, realizado em uma quinta-feira que amanheceu chuvosa, 29 de maio, às 14 horas, ponto facultativo decretado no Rio de Janeiro, cidade mobilizada. Os relatos contam de filas de torcedores já desde as nove da matina ao redor do palco da decisão, as Laranjeiras.

Os campeões de 19 posam para foto [crédito: Flu-Memória]

Os campeões de 19 posam para foto [crédito: Flu-Memória]

Assim como não havia desempate por saldo na primeira fase, disputa por pênaltis não era uma opção, e é isso que explica os absurdos 150 minutos de futebol naquela tarde. Do lado de fora, os sem ingresso ouvem relatos dos que estão dentro, e não é fácil de entender a saga. Chegam mais e mais sujeitos, inconformados com o 0x0 que persiste. No começo da segunda prorrogação de 30 minutos, Friedenreich (Paulistano) pega rebote do goleiro Saporiti após chute de Heitor (Palestra Itália). Era o gol do título, o primeiro da seleção brasileira, o maior das Laranjeiras, que abriu em sonho uma época de outros 15 jogos do Brasil naquele cenário – e nenhuma derrota. O Estado de S. Paulo de sexta-feira cita em sua manchete a vitória dos brasileiros e uma imagem da multidão carioca nas ruas após a decisão, Friedenreich saboreia o posto de estrela popular, ganha o apelido de El Tigre, e Marcos, o goleiro Marcos, garante: “fiz a maior defesa da minha vida”, referindo-se à espalmada no canto direito em chute frontal no último minuto da primeira prorrogação. Ali estaria tudo acabado. Ali estava uma bandeira das Laranjeiras.

Marcos Carneiro de Mendonça

Campeão carioca pelo América em 1913, o goleiro Marcos Carneiro de Mendonça, junto de muitos associados americanos, se desligou do clube e foi vestir e viver outras cores. No caso de Marcos, esta mudança significou um estilo de vida formidável em oito anos no Fluminense. Cerca de 1,90m, elegante e educado, foi um popstar fora de época e certamente o primeiro goleiro do país a ser considerado mais que apenas o pior do time. Com carisma e berço, atraiu atenção e mulheres, sendo inclusive personagem central da criação do termo “torcedor”, em alusão às luvas das espectadoras, torcidas e retorcidas como sinal de afeto e desejo.

O goleiro e ídolo Marcos Carneiro de Mendonça.

O goleiro e ídolo Marcos Carneiro de Mendonça [crédito: Flu-Memória]

O primeiro grande ídolo de Nelson Rodrigues foi Marcos Carneiro de Mendonça, goleiro brasileiro na primeira Copa do Mundo, historiador, dono de mais de 11 mil livros e autor de alguns, pesquisador contumaz sobre o século XVIII no Brasil, e que depois de muito trabalho debaixo da baliza virou presidente do clube em 5 de maio de 1941, época de II Guerra Mundial. Ele sabia do que se tratava. Era galã, popstar e culto.

O Governo Getúlio Vargas, literalmente do outro lado do muro, tremia em busca de posicionamento, e o ex-goleiro fez a devida oposição ao nazismo que chegava do outro lado do oceano quase como uma ficção, de outro mundo. Sua esposa, Maria Amélia, foi figura de frente na luta feminista pelos direitos civis no Rio de Janeiro, como o do voto por exemplo, e os dois juntos formavam um casal atuante e pensador. Foi do casal a iniciativa de, em campanha com sócios do clube, fazer um avião-escola para treinar pilotos que poderiam atuar na Guerra que, vá lá, o Brasil entrara pouco antes.

Sua veia cívica também ricocheteou pelo salão nobre tricolor, pois ajudava a promover concursos oficiais de samba. Ai que saudades da Amélia, de Ataulfo Alves e Mário Lago (Amélia não tinha a menor vaidade // Amélia  que era a mulher de verdade), foi executada pela primeira vez em um desses encontros artísticos sob influência do ídolo que muito marcou fora de campo, mas dentro dele foi um grande campeão. Estava debaixo das traves no tricampeonato estadual entre 36 e 38, e também faturou os de 40 e 41, junto de um timaço que o Fluminense montou a partir de nomes da seleção paulista de outrora, como Romeu, Tim, Hércules e Batatais. Foi o grande goleiro das Laranjeiras.

 Oswaldo Gomes

O artilheiro Oswaldo.

O artilheiro Oswaldo [crédito: Flu-Memória]

Oswaldo, o primeiro goleador da seleção, era uma figura peculiar. Sem a beleza física e mais reservado que expansivo, mostrou sua personalidade quando recusou ir ao Flamengo junto de outros nove atletas que, em momento de cisão dentro do Tricolor, partiram para o lado de lá da força. Seu troféu pelo gesto foi marcar um dos gols do primeiro Fla-Flu, em 1912, 3×2 para os leais contra os desertores. Claro, o jogo foi nas Laranjeiras, onde tudo acontecia.

Homem dedicado ao esporte, Oswaldo vira, em 1922, presidente da CBD, ainda no rescaldo de sua fama como o atacante que marcou o primeiro gol da história da seleção brasileira, em 1914, contra o Exeter City, ali mesmo nas Laranjeiras. Quando deixa a CBD, em 1924, assiste de longe o começo de uma época chamada de profissionalismo marrom, que muda o perfil da prática competitiva, posto que altera veladamente a forma de pagar e atrair jogadores. É ele uma das testemunhas mais próximas que fazem o elo humano entre gerações no futebol carioca e brasileiro. O título de 1919 abriu uma década de 20 auspiciosa, mas claudicante em alguns pontos.

Nesta década chegamos à reta final do processo que resultaria na democratização (antes disso jogar bola era coisa de sócio de clube e de gente bem nascida) e profissionalização do futebol brasileiro. A Copa do Mundo de 1934 mostra bem os cortes e rasgos deste processo, atletas de clubes que querem o profissionalismo ficam de fora da convocação, os do Flu estão entre eles, e a seleção parte para a Copa repleta de botafoguenses, um dos times alinhados à CBD e contrário ao movimento de profissionalização. É o pior desempenho do Brasil em Copa, e depois disso, por coincidência ou não, o Brasil nunca voltou às Laranjeiras. Oswaldo fez o primeiro, e viu a porta fechar.

Aumenta, Laranjeiras

A história se repetiu para a seleção, não em sonho, três anos depois da conquista de 19, no mesmo cenário, ampliado, com um segundo andar de arquibancadas. Brasil, bicampeão sul-americano, desta vez após enfiar 2×0 na Argentina na rodada final e contar com a polêmica derrota uruguaia para o Paraguai, sob arbitragem brasileira. A zebra provocou um empate triplo, mas em protesto por ter dois gols anulados, os uruguaios abriram mão do desempate, saíram da contenda, e então brasileiros e paraguaios fizeram a final. No placar, 3×0 Brasil, um time bem mais forte, uma tarde sem sofrimentos, sem duas prorrogações, sem drama.

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Uma beleza de estádio, completo em seus dois andares e sua área social [crédito: Flu-Memória]

Foram, ao todo, 18 jogos do Brasil naquele estádio, até a despedida, em 1932, um 7×2 contra o Andarahy. A França fez ali, em 1930, o primeiro jogo de um time europeu no Brasil (3×2 para o Brasil). Em 31, levantamos também a Copa Rio-Branco, disputada sempre contra os uruguaios (2×0). Foram 51 gols naquele estádio, contra 16 sofridos.

Laranjeiras do Brasil, e dos cariocas. Se perto do natal de 1919 o Fluminense carimbou de vez o ano vitorioso das Laranjeiras e guardou 4×0 no Flamengo, levando um histórico campeonato estadual e escrevendo o grande jogo da história do clube em sua cancha, foi ali, dois anos depois, que o próprio Flamengo se sagrou campeão estadual ao bater o América que, por sua vez, já fora campeão nas Laranjeiras em 1913 e voltou a ser em 1935, quando empatou com o Flamengo por 2×2. O Vasco deu volta olímpica em 1929, o Botafogo em 1930, o Bangu em 1933 e o Fluminense em doze oportunidades, até a Taça Guanabara de 1993, conquistada contra o Volta Redonda que é, curiosamente, o último a gritar campeão no estádio: se vingou e levou a Copa Rio em cima do Flu, nos penais, em 1994.

A seleção paulista ergueu três troféus, e a carioca dois, do chamado campeonato brasileiro de seleções estaduais. O último jogo de apelo nacional ocorreu em 1992, partida de ida da final da Copa do Brasil, Fluminense 2×1 Internacional, que, no Rio Grande do Sul, venceu por 1×0, gol polêmico de pênalti no finalzinho, e foi campeão. Foram 849 jogos do Fluminense em seus domínios. Venceu 538, perdeu 153, e deu adeus, ou até breve, em 2003, em um 3×3 melancólico diante do Americano de Campos.

Muda o Brasil, chega o Maracanã

Em 1938, uma tentativa de invasão do Palácio onde era a sede do governo Getúlio Vargas usa o estádio das Laranjeiras como ponto estratégico. A confusão foi grande. Queriam pegar Vargas e passaram por cima da segurança do vizinho Fluminense. Os ministros, preocupados, se reuniram. Decidiram pela desapropriação das Laranjeiras. Questão de segurança, alvo vulnerável para a entrada de insurgentes. Getúlio Vargas é informado da ideia de seus homens de confiança, pedindo que a sugestão vire ordem.

“É melhor não mexer com um tricampeão estadual. Vamos reforçar a segurança”, é a resposta do populista líder da nação, sucedido por Eurico Gaspar Dutra em 1945, o homem que assinou os papéis e acompanhou de perto a construção do Maracanã, afastado do centro carioca e imenso, inacreditável de tão grande.

Lá está. Geral, numeradas e uma arquibancada de mil degraus. O golpe é imediato na rotina do estádio das Laranjeiras. O futebol carioca, de mala e cuia, está de mudança para aquele mamute de concreto, e poucos se incomodam. Não há resistência nem mesmo dentro do Fluminense. O encantador estádio já chega com uma Copa do Mundo pela frente, e o Brasil está desesperado para alcançar seus rivais uruguaios, os primeiros bicampeões e com o estádio Centenário, construído para o Mundial de 30. A II Guerra Mundial causou uma pausa naquela disputa saborosa, e a volta foi em grande estilo, em grande estádio. O primeiro gol do Maracanã? Didi, atleta do Fluminense.  A vingança sobre os uruguaios, os homens do Maracanazzo? Taça Rio de 1952, vencida pelo Flu, batendo no Peñarol na campanha. Eram motivos para o Tricolor deixar as Laranjeiras com menos dor.

De 1950 em diante, não existe mais nenhum momento realmente gigante nas Laranjeiras. Nenhum título muito relevante. Nenhum jogo absolutamente memorável. Gerações nascem e geram outras gerações sem ter no estádio um sinônimo de memória pessoal. O Maracanã, sim, o Maracanã é nosso. Muda o século, chega a nova Copa, chegam novas arenas, chega Eike e seu desejo de ser Guinle, chegam os consórcios, e discute-se uma revitalização do estádio das Laranjeiras. Reformar patrimônio tombado? Transformar em uma pequena arena? É o campo dos sonhos difíceis de acreditar.

Linha de fundo

Em 1961 o estádio das Laranjeiras recebeu um golpe que literalmente derrubou parte de sua história. As obras de construção da rua Pinheiro Machado facilitaram o acesso ao urbanizado bairro, estratégico na ligação do centro com o sul.  Detonaram a pedreira que lá estava desde sempre, expandiram as ruas, planejaram viadutos, e isto custou toda a linha de fundo do estádio. Como estimar o preço de uma arquibancada atrás do gol de um estádio planejado para ser inteiro? Pois bem, o Maracanã distraiu a reflexão, o Flu foi ressarcido e o estádio das Laranjeiras virou definitivamente parte do passado. Local de treinos. Pedaço de história que teve de ouvir desaforos de técnicos campeões, de cheirar o perfume barato dos centros de treinamentos de padrão europeu, de viver um pouco mais vazio desde que sua juventude mudou-se para Xerém.

A linha de fundo começa a ser demolida [crédito: Flu-Memória]

A linha de fundo começa a ser demolida [crédito: Flu-Memória]

Mutilado, a velha Laranjeiras ainda viu o Fluminense atuar, eventualmente, em seus domínios. Até 1970 isso aconteceu. Depois, só em 1986, quando o tricolor mandou poucos jogos durante 11 anos de saudade sem satisfação no presente. Ele fica ali, mutilado, mas em parte intacto. “Quem construiu o Maracanã em 50, sabia que desde 1919 a galera aderiu e era apaixonada pela causa do futebol. Entre um e outro, foram 31 anos em que muita coisa aconteceu. Estes anos valeram muito. Em um país agrário, que só inventa a classe média tardiamente, que precisa se identificar com alguma coisa grande e sua, valeu a pena. Sem isso aqui, não sei se teríamos a Copa de 50, e tudo teria sido tão diferente”, encerra D´alincourt ao faminto jornalista.

Faminto, mas não insensível. Deixo a sala da memória do Flu e dou de cara com o salão nobre. Sem nenhum móvel, apenas o piso imponente, o vitral francês e impressionante, o lustre de umas três toneladas, tudo aquilo que não tenho lá muita sensibilidade para contemplar, mas ali contemplo. Está intacto e tão bonito, e que pena que estraçalham os dentes da história em nome de uma concepção apressada de arquitetura pautada em valores discutíveis de conforto, valores inaceitáveis de cidade, valores impossíveis de sustento. O salão nobre das Laranjeiras, dos clipes de Mick Jagger, de Sammy Davis Jr., de concursos efervescentes de marchinhas de carnaval, João Roberto Kelly, Pixinguinha, Fernanda Montenegro, Dona Flor e Seus Dois Maridos, segunda casa de Nélson Rodrigues, iluminado de um lado pela luz que vem da porta da tribuna de honra do estádio, e de outro lado pelos vitrais translúcidos e coloridos. É a mesma luz dos dois lados, e a mesma história. É bonito, mas estou com fome. Foram anos incríveis.

A rotina e a vida seguem na Machu Pichu do futebol brasileiro.

A rotina e a vida seguem na Machu Pichu do futebol brasileiro [crédito: Leandro Iamin/SARRIÁ]


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