O Olhar do Falcão

O Olhar do Falcão

Eliminação dolorida na última Copa do Mundo, desinteresse do torcedor e reposição forçada de jogadores e comissão técnica. O cenário da Copa América 2015 para o Brasil parece muito semelhante com a edição de 1991, correto? Não! Pelo menos para Paulo Roberto Falcão, “a diferença daquela época e de hoje é brutal, enorme. Hoje temos uma safra muito boa na Seleção. Jogadores consagrados, que jogam na Europa”. O técnico da seleção brasileira naquela oportunidade, em entrevista por telefone desde Porto Alegre, cidade onde deu seus primeiros passos como futebolista, rejeitou a comparação.

Revelado pelo Internacional multicampeão dos anos 70, foi para a Roma na década seguinte, onde foi coroado como Rei após a conquista do scudetto da temporada 1982-83. Vestindo a camisa canarinho, foi uma das referências técnicas do time de Telê Santana no Mundial da Espanha. Voltou ao Brasil para se aposentar no São Paulo, sendo campeão paulista, em 1985, ao lado dos Menudos do Morumbi. Por sua trajetória como jogador e carisma fora de campo, foi escolhido, para surpresa de muitos, como o substituto do contestado Sebastião Lazaroni após o fracasso no Mundial, disputado na Itália.

O inexperiente treinador tinha como principal missão trazer novas caras à seleção brasileira. “Descobrir jogadores, buscar uma renovação”. No dia seguinte à sua apresentação, no Rio de Janeiro, viajou ao interior de São Paulo para acompanhar a inédita “Final Caipira” estadual entre Bragantino e Novorizontino. O clube de Bragança Paulista era comandado pelo personalista Nabi Abi Chedid, que retornava à instituição que lhe abriu as portas após presidir a FPF, de 1979 a 1982, e assumir a vice-presidência da CBF entre 1986 e 1989, além de chefiar a delegação brasileira no segundo Mundial realizado no México. Seu treinador era o pouco conhecido e estiloso Vanderlei Luxemburgo, com passagens por clubes do Rio de Janeiro, Espírito Santo e Arábia Saudita.

Como a ave que lhe empresta o apelido, o novo comandante da seleção dirigiu o seu olhar para criaturas pequenas, no caso as revelações de Braga Tigre. O lateral Gil Baiano e o zagueiro Márcio Santos, campeão e vice, foram convocados para o primeiro amistoso da seleção sob o comando de Falcão, derrota brasileira para a Espanha, em Gijón, pelo placar de 3 a 0. O próximo compromisso era a Copa Expedito Teixeira, torneio amistoso entre Brasil e Chile a ser jogado em Santiago e Belém, em memória ao pai de Ricardo Teixeira, vitimado por uma complicação cardíaca no ano anterior, três dias depois de acompanhar, na capital chilena, a partida de ida válida pelas Eliminatórias da Copa do Mundo de 1990.

Porém, a verdadeira motivação do reencontro entre brasileiros e chilenos não era homenagear o falecido pai de Tricky Ricky – apelido cunhado pelo jornalista britânico Andrew Jennings – senão um pedido público de desculpas da ANFP (Federação de Futebol do Chile) aos seus pares da CBF por conta do Condorazo, a farsa envolvendo Roberto El Condor Rojas e o foguete no Maracanã. Cabe lembrar que Teixeira era genro de Jean-Marie Faustine Goedefroid Havelange, o todo poderoso presidente da FIFA, da qual os cartolas chilenos imploravam por perdão.

Dois empates sem gols fizeram a Copa Expedito Teixeira cair no esquecimento. Desconsiderando o jogo realizado em Milão contra o combinado do “Resto do Mundo”, para comemorar o cinquentenário de Pelé – quando os amigos do Rei foram derrotados por 2 a 1 – os comandados de Falcão se despediram de 1990 sem balançar a rede: novo 0x0, agora com o México, em Los Angeles. No Morumbi, em menos de uma semana, o Corinthians capitaneado por Neto, camisa 10 da seleção, conquistaria seu primeiro título nacional.

1991, ano de Copa América

Na temporada seguinte o calendário foi invertido e o Brasileirão disputado a partir de fevereiro, ajudando indiretamente na formação do plantel que viajaria ao Chile. No final do mês, novo empate diante do Paraguai, em Campo Grande, mas com gols. Neto, o intempestivo meia corintiano, marcou o primeiro do ciclo de Falcão – segundo, se considerarmos o tento anotado no Giuseppe Meazza na festa do Pelé, também de autoria do moço de Santo Antônio de Posse.

O surpreendente Bragantino chegou à final do Brasileirão, agora pelas mãos do experiente Carlos Alberto Parreira. A Linguiça Mecânica enfrentaria o São Paulo, que acumulava dois vice-campeonatos consecutivos. Telê Santana enterrou de vez a fama de pé frio e conquistou seu primeiro título pelo clube, contando com a experiência de Ricardo Rocha, a afirmação de Raí e a revelação de Cafu. Ao cabo do Campeonato, Falcão fez a sua lista e partiu para a Granja Comary.

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Condições e novatos

Três dos convocados não apresentavam condições físicas para enfrentar a dura competição continental, a ser travada durante o rigoroso inverno chileno. Julio Cesar foi dispensado por carta, enviada desde Turim, por uma lesão no joelho. Para o seu lugar foi chamado o jovem Cléber, então do Atlético Mineiro. Foi o joelho também que tirou Leonardo da Copa América durante os treinamentos em Teresópolis. Lira, lateral esquerdo do Goiás,  herdou a camisa 16. O terceiro substituído foi Moacir, que deu lugar a Márcio Bittencourt, cabeça de área do Corinthians, segunda opção para a vaga depois da negativa do São Paulo em ceder Bernardo.

Uma semana antes de cruzar a cordilheira, Falcão e sua revoada saíram de Teresópolis, “pois anoitecia muito cedo, impossibilitando o trabalho em dois turnos”, e pousaram em Porto Alegre. Foi na capital gaúcha que Bebeto pediu dispensa, insatisfeito com seu desempenho e a condição de reserva. Silvio, companheiro de ataque de Mazinho Oliveira no Bragantino, atendeu ao chamado rapidamente. O grupo que viajou para o Chile era composto de apenas quatro jogadores “europeus” e muitos garotos, vindos de clubes de 7 Estados diferentes, que disputariam sua primeira competição oficial vestindo a camisa da então tricampeã mundial.

O Estadio Sausalito fazia parte desta trajetória e a seleção brasileira voltava à Viña del Mar 29 anos após bordar sua segunda estrela, a de 1962. O adversário da estreia, Bolívia, vinha de empate com o Uruguai – o Brasil folgou na primeira rodada do Grupo B. Logo aos cinco minutos, Neto abriu o placar de pênalti. Marco Antonio Etcheverry respondeu logo em seguida, a partir de uma violenta cobrança de falta bem defendida por Taffarel. Na etapa complementar, Branco ampliou o marcador utilizando do mesmo recurso do Diablo, sem dar chances para Victor Aragón. No último lance da partida, Wilson Gottardo cometeu um pênalti infantil e coube a Erwin Sanchez descontar para La Verde.

O próximo rival era o Uruguai, assim descrito pelo jornal El País: una desilusión para una pléyade de consagrados y promesas que bajo la Dirección Técnica de Luis Alberto Cubilla había rumbeado hacia Chile sin ningún repatriado”. Ou seja, craques como Francescoli e Sosa sequer viajaram para o Chile e La Celeste apostava suas fichas nos botijas.

Na jogada mais clara dos primeiros 45 minutos, Raí serviu João Paulo, após boa troca de passes do setor ofensivo, tocando na saída do goleiro Fernando Álvez. Na volta do intervalo, os orientales empataram quando Gottardo furou um cruzamento despretensioso, dando condições para Peter Mendez dominar, driblar Taffarel e dar números finais ao clássico.

Brasileiros e uruguaios em campo pela Copa [reprodução de imagem de TV]

Brasileiros e uruguaios em campo pela Copa [reprodução de imagem de TV]

Na sequência vinha o primeiro grande desafio, que atendia pelo nome de Colômbia. Em bela jogada coletiva, Rincón lançou Valderrama livre pela esquerda, El Pibe dominou com a canhota e de pé trocado cruzou para Escobar na grande área, de costas para a meta, que desviou de cabeça e encontrou o baixinho De Ávila. No embalo, ele acertou um belo voleio no canto. Golaço!

Os cafeteros mantiveram o ímpeto e na troca de campo novamente Valderrama teve participação decisiva. Ao brigar por uma bola perdida tocou para o autor do primeiro gol, este devolveu de calcanhar e o camisa 10, com um leve toque, deu uma assistência preciosa para Iguarán. Este fuzilou o ângulo oposto de Taffarel. Primeiro triunfo dos tricolores diante dos brasileiros em competições oficiais.

O Brasil se via obrigado a vencer o Equador por dois gols de diferença para avançar ao quadrangular final – na prévia o Uruguai surpreendeu e bateu a Colômbia por 1 a 0, que, mesmo com a derrota, se classificou automaticamente. Jogo a jogo se notava um clima hostil por parte do público local à seleção brasileira, resposta à exclusão do Chile das próximas eliminatórias sul-americanas, por conta do caso Roberto Rojas.

Quando Fretón Nuñez igualou para os equatorianos – Mazinho Oliveira havia encoberto Erwin Ramirez e aberto o placar– aproveitando um rebote do travessão após um companheiro desviar uma cobrança de corner, as tribunas viñamarinas quase vieram abaixo. Entretanto, foi no mesmo arco que o estreante Márcio Santos – assumiu a titularidade em razão do baixo nível apresentado por Wilson Gottardo – também contou com o desvio de um colega em jogada de escanteio e testou forte, a bola quicou no gramado e enganou o goleiro.

O Brasil seguia pressionando e em uma disputa de bola na pequena área o centroavante Careca Bianchesi foi pisado pelo zagueiro Holger Quiñonez – na época jogador do Vasco da Gama. Mazinho Oliveira foi tomar as dores e acabou sendo expulso pelo folclórico árbitro paraguaio Juan Francisco Escobar, faltando pouco menos de 15 minutos do tempo regulamentar.

Luis Henrique e a vaga

Luis Henrique entrou no lugar do extenuado Neto, e tinha dez minutos para mudar a história. Mudou. Ele disparou da meia cancha, deixando dois marcadores para trás, e só parou a corrida para comemorar a classificação brasileira em frente ao banco de reservas. Estrela.

Mas não houve tempo para muitas comemorações. Mantendo a média de um jogo a cada dois dias, o Brasil deixava Viña del Mar e se dirigia a Santiago, onde enfrentaria a líder do Grupo A: Argentina de Alfio Basile, que ganhou todos os seus compromissos na fase anterior. Nos amistosos preparatórios os rivais haviam empatado no José Amalfitani (3-3) e no Pinheirão (1-1). Os algozes do Mundial da Itália de um ano antes sofreram a baixa de Diego Armando Maradona – suspenso por doping na Liga Italiana – mas contavam com a juventude de Gabriel Omar Batistuta, artilheiro da competição com 4 gols.

Com menos de 1 minuto de bola rolando os albicelestes abriram o placar com um gol de cabeça de Dario Franco, que subiu livre em cobrança de escanteio. Na primeira oportunidade Branco esfriou os ânimos dos hermanos ao acertar um míssil de 140km/h em falta cobrada da intermediária. Ambas as equipes abusavam da bola parada, por conta do gramado pesado.

Em uma arrancada de João Paulo desde o campo de defesa, o ponta esquerda foi parado por um manotazo de Leonardo Astrada, foi observada a vantagem e Luis Henrique seguiu o lance, mas o próprio volante do River Plate, implacável, matou a jogada com um carrinho violento. O árbitro Carlos Maciel mostrou apenas o cartão amarelo. Em seguida, Mazinho devolveu a gentileza em Caniggia. Os dois se desentenderam e o juiz paraguaio mudou a cor do cartão, expulsando ambos.

Aproveitando a falha de marcação na lateral direita – justamente o setor que Mazinho ocupava – Leo Rodriguez encontrou novamente Darío Franco em meio à zaga adversária, que subiu mais alto e cabeceou fora do alcance de Taffarel. Na volta do intervalo, o mesmo Rodriguez passou com extrema facilidade por Branco e em novo cruzamento, desta vez para Batigol, que emulou Franco e fez o terceiro gol argentino.

Houve tempo para o desconto do Brasil – João Paulo aproveitando uma sobra – e outras três expulsões. Carlos Enrique entrou de sola em Márcio Bittencourt e tanto agressor quanto vítima foram retirados de campo, este de maca inclusive. Já Careca Bianchesi, que entrou no lugar de João Paulo, no seu primeiro lance deu uma cotovelada em Ruggieri e foi para a ducha mais cedo.  Márcio Santos recorda que no túnel de saída as duas delegações quase se envolveram em uma briga generalizada, pois o capitão argentino buscava se vingar do golpe recebido.

Entre suspensos e feridos, Falcão se viu obrigado a mexer no time de cara para a revanche contra a Colômbia. Ao notar que o meio-campo adversário gravitava em torno de Valderrama, designou Valdir para fazer marcação individual. A estratégia deu certo e o dilúvio que castigou Santiago antes e durante a partida, prejudicou o toque de bola dos colombianos. Renato Gaúcho de cabeça e Branco cobrando pênalti garantiram os dois pontos para o Brasil.

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Falcão teve a chance de treinar o Inter de seu coração, em 93 e também em 2011. [crédito: Alexandre Lops/S.C.Internacional]

Onde está João Havelange?

Na rodada final, quase todos os assentos do Estadio Nacional estavam ocupados. Mas os organizadores notaram a ausência de um homem durante todo o torneio: João Havelange não atendeu aos chamados da ANFP, Conmebol e tampouco do Palacio de la Moneda – cabe lembrar que Francisco Aylwin, filho caçula do presidente Patricio, era secretário geral do evento. Sinal claro que a FIFA não voltaria atrás em sua decisão de banir La Roja da próxima Copa do Mundo. Havelange foi durante criticado por diversos setores da sociedade chilena, não apenas pela decisão polêmica, mas sobretudo por sua amizade com Augusto Pinochet, ditador derrotado em plebiscito realizado três anos antes.

Brasil e Chile ainda tinham chances de título – os anfitriões haviam empatado as duas primeiras partidas do quadrangular – mas além da vitória tinham que torcer por um tropeço da Argentina na partida de fundo. Tirando o fator local, a seleção comandada por Artur Salah ainda enfrentava a expectativa gerada pela conquista do Colo Colo na Copa Libertadores, feito inédito no país. Oito jogadores do Cacique trocaram o branco pelo vermelho na passagem de junho para julho.

Por fim, o Brasil saiu vencedor naquele domingo de sol com dois gols de cabeça – Mazinho Oliveira e Luis Henrique – que contaram com ajuda de Pato Toledo, goleiro da Universidad Católica. No entanto, o triunfo garantiu apenas o vice-campeonato, pois a Argentina bateu a Colômbia pelo placar mínimo e reconquistou a Copa América após 32 invernadas.

A prestigiosa revista El Gráfico resumiu a campanha da seguinte forma “El mejor equipo de la Copa América, el que estaba ganando trece puntos sobre catorce en juego, el que pasaba por el unánime elogio de todos los técnicos, todos los jugadores, todos los periodistas, era Argentina. Y el final lo encontró campeón. No podía ser de otra manera (…) El nudo en la garganta no se va. La emoción hará inolvidable esta noche de Santiago, de un domingo 21 de julio. Por todo. Por el titulo y porque esta Selección estimula y sienta bien. Juega el futbol que el país argentino ama y quiere.”

Paulo Roberto Falcão não suportou a pressão do resultado ruim e foi dispensado. Mas hoje o treinador acredita que “atingiu plenamente o objetivo de preparar jogadores para a próxima Copa do Mundo”, e o tetracampeonato mundial, sob o comando do já citado Carlos Alberto Parreira, começou ali, com o olhar atento do Falcão. Será?

Em seu último trabalho como técnico, Falcão esteve no Bahia.

Em seu último trabalho como técnico, Falcão esteve no Bahia [crédito: Felipe Oliveira/E.C.Bahia]

Este artigo foi publicado originalmente na última edição da revista digital De Cabeza

1 comentário

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1 Comentário

  • rodrigo de aguiar gomes
    2 de julho de 2015, 18:09

    acho muito parecido o que está ocorrendo agora, diferentemente do que afirma Falcão. na verdade, não foi ele quem ajudou a construir a seleção de 1994. sua permanência, imagino, teria abortado0 o tetra. há vários jogadores que já estavam em 1990, como taffarel, dunga, jorginho e branco. a grande diferença foi a dupla de atacantes e, em especial, romário. a história passa por aí, Falcão foi um tropeço, um trupico, que quase pôs abaixo a conquista da taça nos eua.

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