Editorial #1

Editorial #1

O Estádio do Sarriá, em Barcelona, foi palco do auge e da desgraça da seleção brasileira de 1982, reconhecida desde então e para sempre como uma manifestação de arte e liberdade estética em um esporte cada vez mais pragmático e refém dos resultados. Para um país como o Brasil, que vivia à época o final de sua ditadura militar, assistir aquele time de futebol era encontrar a metáfora perfeita dos desejos de uma sociedade. Esta comunicação artística abraçou o brasileiro, grato até hoje, mesmo sem a taça de campeão. Voa, canarinho, voa.

A redação da Revista SARRIÁ que você acessa agora pensou no palco, não nos artistas. O estádio que inspira o nosso nome já não existe mais. O Maracanã, onde cada caboclo esquecia dos problemas e diferenças para ver uma firula de gênio ou um lampejo de bagre, também não existe. Um modelo de “arena” emoldura um novo conceito estético e econômico de um futebol que ensaia cacoetes e vícios da rotina mais mesquinha e tediosa que podemos ter – e muitas vezes temos – na vida. Não são elementos dissociáveis.

A Central 3, em dois anos e meio de vida, produziu dezenas de programas diferentes em forma de podcast e também ao vivo, e mantém um canal de vídeo, um blog e outras parcerias pontuais. Faltava montar uma redação e produzir a reportagem clássica, livre, apurada e caprichada. Uma revista, e a edição número um está aqui e agora, em uma versão digital, mas pensada com a mesma intensidade de uma revista em papel. Na reunião de pauta, uma certeza de necessidade: boas histórias. Do passado mais que deste presente já tão coberto por tanta gente. Com um bom personagem aqui, uma releitura histórica acolá e trocando a arte meramente sorridente pela crítica nem sempre simpática, quando ela se faz justa.

Na edição inaugural, mergulhamos nos arquivos do Paulistano e na memória dos familiares daquele time que, 90 anos atrás, foi à França para jogar futebol e voltou como Rei do dito cujo. A Redação da SARRIÁ também viajou ao Rio de Janeiro para sentir e tocar o estádio das Laranjeiras, onde, por três décadas, o carioca sonhou e se preparou para o Maracanã que nasceria em 1950.  Em um perfil romântico e sensível, ensaiamos a loucura de Marcelo Bielsa, um raro personagem da casamata. A entrevista da vez é com Eduardo Sacheri, que, sendo superficial, é a cabeça por trás do grande O Segredo de Seus Olhos. E ainda demos espaço para a tão respeitável crônica futebolística, além de falar de Copa América em três frentes: a relação entre as cifras dos estádios em países diferentes em comparação ao Brasil; a campanha do técnico Falcão na última vez que a taça foi disputada no Chile, em 1991; e a comparação das antigas com a atual geração da seleção colombiana.

Em 1982, no Sarriá, caiu o Brasil. Sócrates, o capitão daquele time, entrevistado para a Caros Amigos pouco antes de morrer, disse que ganhar é ideologia barata e nada vale. “O importante é ser feliz, estar satisfeito com o que faz”. O mesmo Sócrates já disse que não se joga futebol para vencer, e sim para não ser esquecido, ainda que vencer seja uma das melhores maneiras de ser lembrado. Pois bem. O Brasil pós-Sarriá abriu os braços para uma democracia confusa e, posteriormente, para um futebol cada dia menos relevante, menos representativo, traduzindo valores questionáveis a um público que pouco questiona.

A Revista SARRIÁ se posiciona ao lado da história séria do futebol profundo, não só do Brasil, não necessariamente de ontem, mas sempre livre para fazer jornalismo, ou arte, ou as duas coisas. Contar histórias com o gravador ligado e o livro aberto. Nossa equipe é pequena mas tem os maiores desejos dentro de si, e acreditamos na força de publicações desta natureza. Sempre há o que dizer e gente interessada em ler, ouvir, saber.  O que nós apuramos está aqui, na edição primeira, e você já está no gramado da SARRIÁ. Toque a bola com a gente.

*As fotos, deste editorial e da capa desta edição, são de Rodrigo Erib.

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