Ecos de Nuñez e a nova Colômbia

Ecos de Nuñez e a nova Colômbia

Aquele 5 de setembro de 93…

A partida perfeita diante da Argentina, válida pelas Eliminatórias da Copa do Mundo de 1994, marcou o início do fim de uma das seleções mais carismáticas e talentosas que o futebol já viu. Enquanto empilhava gols no Monumental de Nuñez com surpreendente facilidade – foram cinco no total – e mandava a Albiceleste para a disputa da repescagem, a Colômbia confirmava seu merecido lugar no Mundial que seria realizado no ano seguinte. Mais do que isso, os colombianos passavam a acreditar cegamente que, com um time daquele, dali em diante, a vitória seria sempre o único resultado possível.

Esta é a Colômbia de 1994, antes de enfrentar a Romênia.

Esta é a Colômbia de 1994, antes de enfrentar a Romênia [crédito: reprodução transmissão oficial da TV]

Mas o pífio desempenho em 94 foi um tremendo golpe na autoestima em destacada ascensão. Eliminada de maneira precoce ainda na primeira fase, a trágica atuação da seleção cafetera naquela Copa serviu para que os mais críticos corroborassem com uma hipótese formulada quatro anos atrás, enquanto René Higuita esbanjava categoria ao – tentar – sair do gol driblando durante o Mundial disputado na Itália. O argumento sustentava a ideia de que aquela se tratava de uma geração incrivelmente talentosa, mas descompromissada com a responsabilidade tática, uma prática cada vez mais usual no futebol e, pior que isso, um time irremediavelmente embriagado pela badalação e viciado em elogios abundantes.

Apesar dos Millas e Hagis da vida, o destacado nível futebolístico encabeçado pelas radiantes madeixas loiras de Valderrama estabeleceu um novo padrão de qualidade a ser atingido. Em entrevista recente, o próprio Pibe afirmou que o time engenhado por Francisco Maturana, campeão da Libertadores de 1989 com o Atlético Nacional (embrião do selecionado cafetero dos anos seguintes), foi o precursor do tal “Toque Toque”, termo local para o hoje famigerado “Tiki-Taka” barcelonista dos tempos de Guardiola.

“A seleção dos anos 90 deixou um paralelo para as gerações futuras, o time atual cresceu vendo Valderrama, Rincón e Leonel, e isso ajudou no progresso do nosso futebol”, explica o jornalista Camilo Rodriguez, da revista El Escorpión, baseada em Bogotá.

Escola boa, notas vermelhas

De fato aquela seleção fez escola, mas os resultados não foram imediatos. Os colombianos tiveram que esperar exatos 20 anos para poder degustar uma nova safra de incontestável qualidade. James Rodríguez, Cuadrado, Cardona, Mejía, Falcao, Guarín, Jackson Martinez e outros nomes que obrigam novamente o torcedor a acreditar nas promessas de um futuro com alguma possibilidade de conquista, ainda tão escassa no futebol do país.

E bem sabemos que é próprio da condição humana a inevitável e quase sempre injusta mania de comparação. Insistimos em confrontar o novo trabalho com o antigo, um amor recente e o que foi deixado para trás por alguma razão qualquer. Da mesma forma que colocamos tudo em uma balança, às vezes sabidamente viciada à nossa maneira, parece que não somos capazes de conviver com dois grandes times de futebol que vestem/vestiram as mesmas cores. Enveredamos nessa busca implacável pela superioridade, pelo esquadrão a ser imortalizado, mesmo que isso custe o abandono do outro, relegado para sempre ao esquecimento meritório do segundo lugar.

Mais ou menos o que acontece com a atual seleção colombiana. Deve ser extremamente difícil para James Rodríguez ter que driblar escondido pela sombra projetada da cabeleira de Valderrama. Ou então para Jackson Martínez disputar um pique de cinquenta metros até a área rival contra a velocidade de Faustino Asprilla. O grande problema ao se estabelecer um novo e tão elevado nível futebolístico, é que também se cria, simultaneamente, um novo desafio. O objetivo que parece nascer em cada nova equipe formada com a obrigatoriedade de superar o time anterior.

Outros tempos

“É outra época. A geração atual é de jogadores que atuaram pouco, ou nunca, em nível profissional no torneio colombiano. James Rodriguez debutou no Banfield, Falcao no River Plate, Cuadrado jogou poucas partidas antes de ir para a Itália. Isso fez com que tivessem uma mentalidade diferente da geração dos anos 90, que recebia muita pressão dos torcedores e da imprensa”, explica Camilo.

Além da ausência de uma pressão local, essa experiência internacional, que rapta os jogadores rumo ao exterior cada vez mais cedo, tornou a atual seleção algo mais “madura”. O intercâmbio com o futebol europeu trouxe, e ao mesmo tempo sufocou, algumas características intrínsecas do selecionado tricolor. Enquanto em 1994, dos 22 atletas convocados, 18 atuavam na Colômbia, incluindo o capitão Valderrama, para a Copa de 2014 só três dos 23 disputavam a liga local.

Cuadrado no Chelsea: poucos jogos em seu país [crédito: divulgação Chelsea FC]

Cuadrado no Chelsea: poucos jogos em seu país [crédito: divulgação Chelsea FC]

A tal irresponsabilidade colombiana foi se perdendo e, junto com ela, todo aquele futebol vistoso, uma característica exclusiva de quem se dá ao luxo de atacar sobre todas as coisas, valendo-se inclusive do potencial do próprio camisa um – por que não? Os atletas se acostumaram a outro tipo de jogo, muito mais disputado na força bruta do que propriamente com a bola nos pés. As partidas são decididas na base da velocidade, da robustez e na potência física, qualidades que se sobrepõem ao talento individual. É por isso que atualmente nos assombramos com qualquer louco que apareça por aí provando que não é necessário correr 11 quilômetros por partida para ser considerado um craque. Talvez ele conheça os atalhos certos e saiba que basta correr apenas aqueles seis quilômetros de sucesso.

“James é um jogador muito jovem e ainda pode dar muito mais à seleção. Poderia dizer que não é um 10 clássico. É mais um jogador que vai pelos lados e corta para o meio para dar um passe ou marcar, mas na minha maneira de ver o futebol não é comparável ao Pibe. Ele era um jogador diferente, destes que foram se extinguindo com o passar dos anos. Ele não corria, mas fazia a bola correr”, complementa Camilo.

James, em 2011 no Mundial sub-20. Outro 10, outro estilo [crédito: FCF]

James, em 2011 no Mundial sub-20. Outro 10, outro estilo [crédito: FCF]

Fora a questão física, os jogadores passaram a conviver com uma rotina maior de partidas importantes e com futebolistas de todas as partes do globo terrestre. A mercantilização do futebol também serviu, de certo modo, para aproximar as fronteiras. Há equipes espalhadas por aí que são, na realidade, uma verdadeira colcha de retalhos. Conceitos aprendidos com treinadores de outras partes do mundo da bola impregnaram os colombianos com um maior senso tático e, consequentemente, com o sentimento de que cumprir a tarefa individual em prol do benefício coletivo também pode ser algo extremamente vantajoso.

“Era parte do folclore da seleção dos anos 90, o puro talento e a pouca disciplina. Uma forma diferente de ver o mundo, diria. O contexto também ajudou nestes fracassos, quando esta geração era jovem e permaneceu no país, estando sempre cheia de excessos e adulações, algo que é muito difícil de lidar nessa idade”, afirma Camilo.

As comparações são inevitáveis?

Pois então não deveriam ser. Até porque quem escolhe a frieza dos números como fiel da balança não tem motivos para comparar. A atual seleção colombiana é melhor e ponto. Segundo os números, é claro. Com José Pekerman na casamata, a Colômbia já alcançou a melhor colocação em um Mundial de futebol ao chegar às quartas de final da Copa de 2014. Enquanto isso, a outra, a mais simpática das duas, não ganhou nada e ainda decepcionou quando chegou como sensação.

Mas para quem sente o sangue correr pelas veias e palpitar embaixo do escudo, é impossível sentir-se indiferente ao carisma daquela Colômbia noventosa. E pese a seriedade imposta pelos números, a atual seleção cafetera ainda não conquistou o seu 5 a 0 na Argentina, ainda não escalou o seu próprio Everest. É claro que isso pode acontecer de várias maneiras diferentes.

 


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