Arena ganha jogo?

Arena ganha jogo?

O 7×1 jamais sairá da memória futebolística popular. O calendário já deu uma volta inteira e já voltamos a ver outro certame tradicional, a Copa América, que voltou ao Chile após 24 anos. Para além dos guias que destrincharam jogadores, treinadores e seleções,  em uma ótima prévia do que poderemos ver nas Eliminatórias que começam em setembro, temos também a oportunidade de fazer algumas observações a respeito da maneira que alguns países se prepararam pra sediar torneios de grande porte internacional.

Cabia ao Brasil albergar a edição da Copa América deste ano, mesmo apertado entre um Mundial e uma Olimpíada. Com tantos megaeventos em série, fez-se um acordo com os chilenos, que estavam designados a receber a edição de 2019, e a ordem foi invertida, Chile-15, Brasil-19. A SARRIÁ aproveitou este novo momento da competição em tela para traçar alguns comparativos entre as diferentes sedes, mais precisamente entre Venezuela 2007, Brasil 2014 (e 2019) e Chile 2015. Três edições da mesma competição em países com diferentes realidades.

Crítica venezuelana, espelho brasileiro

A jornalista venezuelana Patricia Martinez, que cobre futebol local e internacional, foi dura na análise do cenário de seu país em relação ao futebol. “Na atual Libertadores, os clubes venezuelanos passaram ridículo. É certo que a seleção teve um boom. Não tem bons resultados recentes, mas a seleção está se adaptando ao novo técnico. Eu, como muitos, me pergunto como ela vai evoluir e chegar a uma Copa do Mundo se o futebol nacional tem tantas carências e clubes endividados. Morrem torcedores, até jogador faleceu, outro foi atacado ao vivo na TV e o presidente da federação está há 28 anos no cargo”.

Suas afirmações lembram as atuais lamúrias da imprensa e torcida brasileiras, guardadas as devidas proporções e exigências de cada público. E o dirigente mencionado, Rafael Esquivel, é um dos indiciados pelo FBI, no escândalo de corrupção na FIFA que acaba de abalar o universo futebolístico. No caso brasileiro, grandes controvérsias tomaram conta da construção das arenas, apontadas como ponta de lança da elitização e até privatização do futebol.

Um exemplo e um tapa: “Quando o preço cai muito, o nível do torcedor que vai ao estádio é muito pior. Inclusive, atrai um perfil de público que devemos abolir dos estádios, que é uma bandidagem”, dissera o consultor de mercado Amir Somoggi, colunista do diário Lance! e fonte onipresente nos debates sobre a chamada modernização do futebol.

brasilia_divulgacao

Estádio de Brasília, um dos tantos reformados em região cujo público local não mostrava tal demanda [crédito: divulgação]

Para bom entendedor, a senha estava dada. E as pesquisas socioeconômicas realizadas em porta de estádio, tanto na Copa das Confederações quanto na Copa do Mundo, atestaram a mudança de público, o que, agora, vemos alastrar-se para alguns clubes. “Fizemos testes, sentimos o mercado e sabemos que não queremos vender para qualquer um. Quando você abre um shopping, você não vende o espaço para qualquer loja, vai atrás das lojas que quer”, disse Aníbal Coutinho, arquiteto responsável pelo Itaquerão (ou Arena Corinthians), em entrevista do ano passado.

Quanto ao Novo Maracanã, o Consórcio privado que gere o estádio mudou até as tradicionais localizações das torcidas no estádio, além de ter iniciado sua administração tentando impedir a entrada de bandeiras de grande porte. Além disso, ameaçou reduzir drasticamente o número de jogos, por conta dos prejuízos operacionais causados por partidas repletas de cadeiras vazias.

Calculadora e cofre

Os estádios brasileiros tiveram um custo projetado de 4 bilhões de reais, não sustentado nem de perto. Finda a Copa, os números chegam próximos dos 9 bilhões. Mais que o dobro. No total dos gastos, atingiu-se uma cifra próxima de 28 bilhões de reais, de acordo com o Portal da Transparência, configurando o Mundial mais caro da história. E nos países vizinhos aqui mencionados? Será que temos algo parecido nas projeções dos estádios construídos ou remodelados?

“No geral, e como política de Estado, nos últimos 8 anos foram construídos ou remodelados diversos estádios no Chile, alguns utilizados na Copa América. Mesmo assim, não se trata de estádios como aqueles que foram construídos no Brasil, mas apenas uma atualização mínima de locais muito antigos”, explicou à SARRIÁ o jornalista Sergio Montes, da revista De Cabeza.

Neste caso, um quadro marcado por uma organização que não mostrou nenhuma megalomania na preparação estrutural para o torneio. Foram gastos 60 milhões de dólares para toda a competição e o financiamento dos estádios, como dito por Montes, se deveu mais a uma política interna do que à recepção do torneio de seleções. Como publicou a revista Placar em seu guia, foram cerca de 400 milhões de reais em diversas canchas – porém, desde antes de se pensar o Chile como sede de 2015.

Já em 2007, auge do chavismo na Venezuela, a Copa América foi recebida com pompa e circunstância que jamais havíamos visto: 900 milhões de dólares foram investidos pelo governo na organização do torneio, jogado em 9 estádios diferentes. O mais caro deles foi o Monumental de Maturín, para 52,000 pessoas, o maior do país. Quatro saíram do zero e cinco foram remodelados.

 

Cancha em Maturín, Venezuela, remodelado para a Copa América de 2007 [crédito: divulgação]

Cancha em Maturín, Venezuela, remodelado para a Copa América de 2007 [crédito: divulgação]

O leitor pode conferir a lista completa, por cidade, cancha, capacidade e data de (re)abertura:

 

Gabri VEN

 

Vale lembrar que boa parte das cifras desta edição foi gasta em segurança, dadas as tensões fronteiriças com a Colômbia que pautavam o noticiário da época e colocavam o governo sob questionamento internacional.  Voltando ao nosso tema central, assim como os brasileiros se perguntam sobre o destino de algumas arenas, como as de Manaus, Brasília, Cuiabá e até Recife, caras e subutilizadas, os venezuelanos também sofrem dilema parecido.

“Aqui, o futebol, em termos econômicos e gerenciais, tem problemas. Comparado a outros países, segue atrasado. Muitos estádios estão abandonados, como o Pachenco Romero em Maracaibo, o Monumental de Maturín e o Olímpico de Caracas. Outros, inclusive, não terminaram a construção, como o Metropolitano de Lara. O Brigido Iriarte (estádio poliesportivo em Caracas, não utilizado no torneio de 2007) também está horrível, pois há muitas equipes na capital e ainda o utilizam pra outras atividades”, aponta Patricia Martinez.

Há problemas. Mas também diferenças. Basicamente, porque, no mínimo, tais estádios têm utilidade poliesportiva e estão, bem ou mal, vinculados a políticas oficiais, ao passo que o atual Ministério dos Esportes é ocupado por um pastor da bancada evangélica.

Em 2011, a jornalista Marina Terra revelou em matéria para o Opera Mundi:  “O entusiasmo com o futebol reflete o novo fôlego esportivo depois que Chávez chegou ao governo e decidiu fazer da educação física um instrumento de inclusão social. O desfecho institucional dessa decisão é a Lei Orgânica para o Esporte, criada em 2011, que determina objetivos como a massificação da atividade e a criação de um fundo nacional para seu financiamento, sob controle do Estado. O investimento público anual em esportes, entre 1992 e 1998, equivaleu a 3,75 milhões de dólares, segundo dados do governo. Nos primeiros onze anos da administração Chávez, entre 1999 e 2010, essa cifra saltou para 131,7 milhões – multiplicando por 35 as verbas desembolsadas pelos antigos governos”.

“Nesse sentido, o custo da Copa América 2015 (100% absorvido pelo Estado chileno) não foi especialmente relevante, e nem causou muito debate na opinião pública” assinalou Sergio Montes. E, de fato, a lista chilena é muito mais modesta no comparativo:

gabrichile2

“Como vocês verão na Copa América, as canchas não são nenhuma maravilha. A única polêmica é que, por conta de tais reformas, as capacidades desses estádios diminuíram sensivelmente”, completou Montes.

Os chilenos tiveram como única preocupação ver sua seleção aproveitar o recente progresso técnico experimentado pelo país e tentar levantar seu primeiro título oficial. Venezuelanos e brasileiros, entretanto, precisam administrar outros dilemas.


Outras Postagens



Deixe um comentário

Seu e-mail não será publicado. Campos marcados com * são obrigatórios

Cancelar resposta