A Conquista da América

A Conquista da América

Ao sobrevoar Santiago de avião é possível observar terrenos baldios, imensos pedações de terra que servem, quase exclusivamente, para a prática do futebol. Entretenimento gratuito perpetuado na memória afetiva da cidade. É possível observar crianças atrás de uma bola, símbolo de um sonho alçado por tantos e destroçado em muitos, mas que por essência não morre.

Do alto do céu não perseguimos o sonho daqueles jovens que com a pelota se imaginam na Copa, nalgum time da cidade, do bairro. Este que parece ser o mais barato dos sonhos a serem praticados. Basta uma bola e outros de mesmo sonho.

Ao se chegar ao Estádio Nacional também não é possível notar as memórias cruéis que cercam o recinto. A vez dos militares e o duro jogo político praticado, num mesmo campo, num outro tempo. Não se pode ouvir as sirenes da alta madrugado proclamando em caos, a ordem. A voz sangrenta àqueles que eram contra o regime. Nos ano de ditadura os ecos do estádio vinham de atos revolucionários cicatrizados em silêncio.

São tempos novos, de memória televisiva, indolor e global. Longe de qualquer indagação política ou social, o que vale é o espetáculo. E assim se realizou a Copa América desse ano, distante de qualquer menção que não seja futebolística. Seleções do continente e alguns estranhos convidados, selecionados por aspectos de território e marketing.

Antes mesmo de a Copa começar, esta que é profissional e nada tem a ver com os sonhos de menino, era possível notar distintos desfalques. Não se trata de jogadores, comissão técnica ou torcida. O caso é não notar paixão pelo esporte, o atual descaso, comum a tantos como o de Zamorano. O futebol, tão praticado em terrenos de terra batida, de fácil acesso e que se tornou mercadológico. Um grande negócio praqueles que vendem chuteiras, negociam salários e gorjetas empresariais. O mais popular esporte, capaz de postergar o golpe militar e que agora tenta se esquivar de novos escândalos. Puro engano. Que farão da desculpa uma oportunidade.

Ainda em destaque, falta uma voz ativa, uma figura tal qual Pedro Marcondes Lemebel, que pudesse mostrar ao mundo um Chile verdadeiro, de qualidades e defeitos. Escancarado por atitudes permissivas e desalentadoras. Alguém que pudesse num instante de “Yeguas del Apocalipsis” protagonizar ainda em campo La última cena de San Camilo, discorrer em intervenções Las dos Frida ou que num ímpeto pudesse incidir de La nostalgia, ressuscitar a imagem em Ejercicio de memoria. Que fizesse uma torcida inteira comemorar e dançar, em denúncia cívica, passos de cueca sola. Que bradasse, ao invés do hino nacional, versos de Hablo por mi Diferencia.

Que se fizesse, mais uma vez, Pedro, um criador incansável, um lutador social e defensor da liberdade, representante dos marginalizados e os esquecidos, daqueles meninos que desejam a bola e o sonho.

Em comum com o artista, apenas a sensação de querer, de preferir, de alcançar o “No”, algum basta. Utopia comum ao cone sul desde o final dos anos 80.


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